“Fluxo vital de átomos” como abordagem da materialidade no Ensino de Ciências
DOI:
https://doi.org/10.22600/1518-8795.ienci/2026v31n2p238Palavras-chave:
antropoceno, ecologia atômica, Ensino de Química, interdisciplinaridade, poluição químicaResumo
Sob um contexto complexo de multicrises ambientais de origem antrópica em escala planetária, propõe-se, com vistas ao ensino básico, um novo quadro conceitual para a abordagem da matéria corpórea vivente. Ao compreender o ser vivo em função dos intercâmbios de fluxos atômicos com seu entorno, a entidade “átomo” é situada como articuladora e portadora de sentido fundamental. Em analogia ao conceito de genoma, utiliza-se a recente terminologia “elementoma” junto à associação entre a corporeidade vivente e os ciclos biogeoquímicos. A vinculação coletiva dos seres viventes e a incorporação material das diferentes temporalidades históricas (geológica, biológica e humana) permitiu propor concepções como o fluxo vital de átomos e a descendência atômica planetária. Ainda, sob a perspectiva de um novo “letramento interdisciplinar” (Povinelli, 2023), implicamos eticamente o humano ao abordarmos a crise global de poluição química em conjunto com a “permeabilidade” do corpo vivente através de conceitos como transcorporalidade (Alaimo, 2010) e “regime químico da vida” (Murphy, 2008). Por fim, a criação de uma alternativa pedagógica que inverte a tradicional abordagem nas Ciências da Natureza do submicro como explicação para o macro, apontamos uma visão mais ética, horizontal, complexa e aberta de interdependência entre os viventes.Referências
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